03-2026
Luiz Baltar apresenta o mundo dos bate-bolas no curta “Sonho e Delírio”
O trabalho documental do consagrado fotógrafo Luiz Baltar é a espinha dorsal do curta-metragem “Sonho e Delírio”, que faz uma imersão poética no universo de cores e fantasias dos “Clóvis” ou bate-bolas, uma das manifestações mais emblemáticas (e, por vezes, incompreendidas), do carnaval de rua carioca e fluminense. O filme será apresentado ao público no sábado, 28 de março, no Espaço Cultural Arte Sesc, no Flamengo, no Rio de Janeiro (RJ), às 15h30, com entrada gratuita – depois da sessão, a equipe do filme participa de um debate com o público. Outras unidades do Sesc deverão exibir o curta, mas a programação ainda não foi definida.

Produzido e lançado pela Fluxorama, “Sonho e Delírio” constrói um diálogo entre tempos, linguagens e sensibilidades ao fundir fotografias de Baltar à narração do texto “Cordões”, de João do Rio, icônico cronista da vida urbana carioca do início do século 20. Segundo Luiz Baltar, a força cultural dos bate-bolas permanece pouco documentada no campo das artes visuais, apesar da sua importância para a cultura carioca e fluminense. “As mais de 200 turmas ativas representam uma vigorosa tradição carnavalesca e uma rede complexa de saberes que passa de geração em geração, desde a confecção artesanal das fantasias, as linguagens próprias de cada grupo, os códigos de convivência até os rituais das saídas”, diz ele, que faz uma documentação fotográfica dessa manifestação cultural suburbana há mais de uma década.

O curta-metragem apresenta primeiro o “Sonho” na sua narrativa: a câmera acompanha a preparação íntima, quase silenciosa, para a saída às ruas dos bate-bolas: os gestos repetidos, o cuidado com a fantasia e a expectativa que antecede a festa. Enquanto isso, os movimentos do dançarino Geovanne Pereira Chagas, conhecido como Laranjinha Ritmado, funcionam como metáfora corporal dessa excitação contida, quase ritualística. Depois, chega o momento de mergulhar no “Delírio”, quando a explosão da folia toma o espaço urbano e os bate-bolas ocupam as ruas com cor, som e intensidade. “Escolhemos gravar a performance de um dançarino de funk para mostrar que, embora o tempo passe, o espírito da festa e a resistência cultural permanecem intrínsecos à identidade do Rio”, afirma Baltar.

Marcio Nolasco, diretor do filme, comenta que tanto na concepção quanto na produção e na edição do filme, não houve interesse criar uma experiência que explicasse os bate-bolas, mas que convidasse o espectador a senti-los, acompanhando esse movimento entre preparação meticulosa e euforia coletiva que atravessa o carnaval. Assim como nas imagens de Baltar, o filme traz um aspecto fantasioso e lúdico para o trabalho e alegria dos bate-bolas, que reúnem desde homens, mulheres, crianças até famílias inteiras. Ao evidenciá-los como patrimônio cultural vivo, o curta contribui para a ampliação do imaginário em torno desse ritual e propõe novas formas de olhar para o carnaval do Rio de Janeiro.

Segundo estudiosos da cultura popular, a origem do nome “Clóvis” deriva da palavra inglesa clown (palhaço), termo que se popularizou no início do século 20 na cidade do Rio de Janeiro. A tradição começou nos subúrbios cariocas nos anos 1930, particularmente no bairro de Santa Cruz, zona oeste da cidade, onde havia um grande matadouro. Os foliões usavam bexigas de boi ou de porco (de cheiro desagradável) para assustar e brincar, tradição que evoluiu para o uso de bolas de plástico ou de borracha coloridas, presas a cordas, que são batidas no chão e em paredes. A tradição permanece forte e enraizada nos subúrbios, principalmente na zona Oeste do Rio, e na Baixada Fluminense, onde os bate-bolas se organizam em turmas (grupos) que se preparam o ano todo – as fantasias são alegres, elaboradas, coloridas, brilhantes e podem custar caro, com máscaras de palhaço, sombrinhas e roupas volumosas e, claro, as bolas coloridas.


