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09-2026

Centenário de Fernando Lemos motiva uma grande mostra no IMS Paulista

Em celebração ao centenário de nascimento de Fernando Lemos, a exposição Quanto mais desejo, mais invento o que vejo percorre a trajetória do artista luso-brasileiro e será aberta no IMS Paulista, em São Paulo (SP), no dia 19 de setembro de 2026, ficando em cartaz até 7 de fevereiro de 2027, com entrada gratuita. Lemos integrou o movimento surrealista português no final dos anos 1940 e, em 1953, emigrou para o Brasil, onde viveu até 2019, ano de sua morte. O título da exposição é uma estrofe do poema “Quanto mais desejo”, já que ele fez da poesia uma forma de narrar a própria vida.

Obra “Eu”, autorretrato do fotógrafo luso-brasileiro Fernando Lemos

A mostra engloba mais de 70 anos da produção do artista e apresenta ao público o arquivo sob a guarda do IMS desde 2019, somado ao material conservado com a família. São cerca de 400 itens, entre fotografias, desenhos, projetos e documentos (muitos inéditos), que permitem acompanhar a trajetória de Lemos e a maneira como desdobrou as ideias surrealistas ao longo da vida. Com curadoria de Thyago Nogueira, a obra do artista é revista a partir da ideia de “desocultação”, conceito-chave para unir sua produção em fotografia, desenho e poesia.

Obra “Lavagem cerebral”, típica da fase surrealista de Lemos ainda em Portugal

Ao longo da vida, Lemos atravessou duas ditaduras: uma em Portugal, outra no Brasil. O medo da repressão, que o obrigou a fugir de Portugal, fez nascer uma personalidade combativa, que lutava por direitos e se manifestava diante de injustiças. Além do trabalho de ateliê, ele integrou organizações de resistência, participou de campanhas políticas e atuou em instituições culturais para ampliar o acesso à arte e à cultura como passos fundamentais no fortalecimento das democracias.

Obra “Procura ardente”, na qual Lemos utiliza a técnica da dupla exposição

A exposição reúne mais de 400 obras, agrupadas em diferentes núcleos, que se cruzam e se complementam. Em “Desocultações”, estão reunidas as fotografias da juventude de Lemos, realizadas entre 1949 e 1952, ainda em Lisboa. Nesse período, o artista se aproximou do Partido Comunista e do movimento surrealista, integrando um grupo de jovens que promovia ações de oposição ao conservadorismo crescente da arte burguesa e à repressão do Estado Novo, instaurado em 1933 em Portugal.

Obra “Quando não há portas”, uma das centenas que podem ser vistas no IMS

Desde jovem, Lemos encontrou no surrealismo francês um campo fértil para sua arte, interessando-se pelas imagens do inconsciente, pela escrita automática e pelos princípios de ocultação e desocultação. Desdobrou essas ideias em dezenas de retratos de múltipla exposição, em preto e branco e médio formato, registrando uma geração de artistas e pensadores que tentavam resistir ao avanço da ditadura portuguesa. Depois que se exilou no Brasil, ano começo dos anos 1950, ele ainda fotografou as escritoras Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles e os artistas Wyllis de Castro e Hércules Barsotti, mas aos poucos se afastou da fotografia. Em 1960, ele naturalizou-se brasileiro. E as imagens surrealistas foram retomadas apenas nos anos 1990, depois de uma grande exposição na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Lisboa.

Retratos da escritora Hilda Hilst realizados por Lemos em 1959, em São Paulo

Filho de pai marinheiro e marceneiro e de mãe rendeira e trabalhadora doméstica, ele nasceu em 1926 em Lisboa e contraiu meningite e poliomielite na infância, experiência que marcou sua vida e arte. Nos anos 1940, frequentou cursos de litografia, desenho gráfico e aquarela, aproximando-se da fotografia e da pintura. Ao fugir da ditadura salazarista, Lemos construiu no Brasil uma carreira extensa, com projetos individuais e coletivos. Também atravessou a ditadura por aqui, que enfrentou com resistência na busca de fortalecer a arte, a produção e a pesquisa. Integrou a equipe inaugural do Idart (Departamento de Informação e Documentação Artísticas), criado em 1975 pela Prefeitura de São Paulo, dirigiu o Centro Cultural São Paulo e participou da construção do Memorial da América Latina, entre outras atividades.

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