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09-2026

Mostra no Instituto Cervantes revela a arte de Palmira Puig na fotografia modernista brasileira

O nome do fotógrafo catalão Marcel Giró, que se estabeleceu em São Paulo (SP), é bastante conhecido, mas o de sua companheira e também fotógrafa Palmira Puig poucos ouviram falar. Um dos principais motivos da exposição “Palmira Puig/Marcel Giró – Humanismo na fotografia modernista brasileira”, com curadoria da espanhola Rocío Santa Cruz, é exatamente esse: mostrar a trajetória e jogar luz sobre o trabalho de Puig, que, ao lado do marido, também foi pioneira na fotografia publicitária brasileira ao abrir o Estúdio Giró, em 1953, na capital paulista. Em cartaz no Instituto Cervantes (Avenida Paulista, 2.439, Consolação), a mostra vai até 30 de dezembro de 2026 – com entrada gratuita.

Palmira Puig e Marcel Giró num autorretrato em praia do litoral paulista em 1950

Palmira Puig nasceu em Tárrega (Lérida), na Catalunha, em 1912, e casou-se com Marcel Giró em 1942. Em razão da ditadura do general Francisco Franco, após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o casal se exilou na Colômbia a partir de 1943 e, depois, mudou-se para São Paulo, em 1948. Como fotógrafos, fizeram da capital paulista um espaço fundamental para sua produção autoral, já que participaram diretamente da construção da fotografia modernista brasileira como membros do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB). Filha de um ilustre deputado republicano (que morreu em 1925, deixando oito filhos), Palmira Puig uniu-se à mãe para a criação de um grupo feminista de esquerda em sua cidade natal, em 1933. Por isso, tinha especial interesse pela fotografia humanista, o que a levou a fotografar, junto com o marido, as comunidades paulistanas e seus habitantes nos anos 1970. Um trabalho no qual ela capta não apenas suas difíceis condições de vida, mas também dignidade e beleza.

“Esperando a filha”, trabalho autoral de Palmira Puig focado em comunidades carentes da capital paulista

Na fotografia publicitária, o casal marcou época com Estúdio Giró, que, por quase três décadas, foi um dos principais do Brasil, revelando nomes como J.R Duran e Marcio Scavone. Sediado na Avenida República do Líbano, bairro de Moema, era um expoente de modernidade em um momento de forte expansão do mercado de publicidade brasileiro, que passava a demandar uma linguagem visual atualizada e sofisticada.

Imagem publicitária de uma Kombi de 1961, feita para a Volkswagen pelo Estúdio Giró

As fotos da exposição ficaram guardadas em caixas e foram encontradas por acaso pelo sobrinho do Marcel, Toni Ricart Giró, logo após o falecimento do tio, em 2011 – a própria família não tinha ideia da extensão e da importância do trabalho deles no Brasil. Assim, trata-se da primeira grande exposição dedicada conjuntamente aos dois artistas. O percurso passa pelas experiências anteriores ao exílio, pela chegada ao Brasil, pela atuação no FCCB, pela parceria criativa do casal e pelo Estúdio Giró. Ao se estabelecerem em São Paulo, encontraram uma cidade em plena transformação. Arquitetura, ruas, geometrias, personagens e cenas cotidianas passaram a fazer parte de uma produção autoral que conciliava experimentação formal e atenção à experiência humana.

Fotografia de rua com realizada por Palmira Puig nos tempos em que era membro do FCCB

A participação no FCCB foi decisiva: Marcel ingressou em 1950 e Palmira, em 1956, passando a integrar um ambiente que reunia nomes como Thomaz Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Gertrudes Altschul, Eduardo Salvatore e José Yalenti – e que teve papel central na renovação da linguagem fotográfica brasileira. Obras de alguns desses autores também estão presentes na exposição, ao lado de trabalhos de outros nomes ligados a esse importante momento do modernismo nacional.

Imagem colorida captada em 1973 em São Paulo pelo olhar humanista de por Palmira Puig

Embora tenham compartilhado experiências e referências, Palmira Puig e Marcel Giró construíram olhares autorais próprios. Palmira voltou sua atenção especialmente às relações humanas, aos gestos cotidianos e aos pequenos acontecimentos da vida, enquanto Giró explorou com mais intensidade as formas, os contrastes e as geometrias da cidade moderna. Porém, durante décadas a trajetória de Palmira ficou em segundo plano diante da projeção alcançada pelo marido. Como uma das poucas mulheres a integrar o FCCB, atuou em um contexto em que a presença feminina ainda era reduzida em salões de fotografia, nas estruturas de fotoclubes e nos espaços de decisão. Pesquisas recentes vêm revendo essa história e reconhecendo a força e a importância de sua produção para a fotografia modernista brasileira – um protagonismo que a exposição também busca recuperar.

Retrato de borracheiro feito por Marcel Giró na época em que também era membro do FCCB

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