10-2026
O olhar irônico de Martin Parr sobre o turismo é tema de exposição em São Paulo
O fotógrafo britânico Martin Parr (1952-2025) esteve várias vezes no Brasil, inclusive no Festival Paraty em Foco, mas será a primeira vez que o público brasileiro poderá observar seu olhar irônico e crítico sobre o comportamento dos turistas ao redor do mundo. A exposição “Mundo Pequeno” (Small World) brinca com o turismo de massa, o consumo e a obsessão em produzir provas de que a pessoa esteve ali – não importa onde “ali” seja. Com curadoria de João Kulcsár, responsável por trazer o projeto ao País, a mostra poderá ser vista na Galeria de Fotos do Centro Cultural FIESP em São Paulo (SP), até o dia 4 de abril de 2027, de terça a domingo, das 10h às 20h, com entrada gratuita.

“Mundo Pequeno” transforma cenas aparentemente banais do turismo em retratos de uma sociedade que viaja, consome, registra e reproduz experiências em escala global. Monumentos, praias, multidões e pontos turísticos se tornam joias para um olhar lapidado pelo humor e pela crítica, uma característica que tornou Parr, membro da Magnum Photos, um dos fotógrafos mais celebrados do mundo. Como sugere ele, o turismo contemporâneo transforma a experiência de viajar em performance. Assim, Parr captava essas situações com uma precisão particular e leva o espectador rir – antes mesmo de perceber que pode estar rindo de si próprio.

Produzida a partir do fim dos anos 1980, a série foi publicada em livro pela primeira vez em 1995. Nas décadas seguintes, Parr manteve o projeto em constante atualização, acompanhando os novos fenômenos do turismo a cada nova edição. A mais recente, de 2026, foi preparada pelo fotógrafo pouco antes de sua morte, ocorrida em 6 de dezembro de 2025. A série já passou por cerca de 25 países e, no Brasil, reúne 45 imagens que percorrem essa trajetória, incluindo fotos mais recentes da sexta edição do livro. Já a relação de João Kulcsár com a obra começou em 1996, quando ele viu “Mundo Pequeno” pela primeira vez em Edimburgo, na Escócia, experiência que, segundo ele, mudou sua própria maneira de fotografar em viagens. Ao longo dos anos, a admiração se transformou em amizade: Kulcsár e Parr se encontraram diversas vezes, inclusive em São Paulo, onde o curador levou o fotógrafo a lugares como um forró para fotografar a cidade com seus próprios olhos.

Para o curador, a força do trabalho de Parr estava na capacidade de flagrar o extraordinário dentro do banal. “Ele não precisava criar uma situação para que ela se tornasse interessante. Um gesto, uma roupa, uma comida, a maneira como alguém se posicionava diante de um monumento, um grupo de turistas repetindo o mesmo comportamento… Ele percebia pequenas contradições do cotidiano e sabia transformá-las em imagens muito potentes”, observa Kulcsár.

Um dos pontos altos da mostra ultrapassa as paredes da galeria: a instalação de uma praia artificial na esplanada do CCF, em plena Avenida Paulista, uma cidade sem litoral ganhando, por alguns meses, sua própria “praia” turística. Isso desloca para o espaço público uma das questões centrais da obra de Parr: a transformação do lazer, da viagem e da experiência em produtos de consumo e imagens a serem compartilhadas. Com isso, a exposição também convida o público a virar, literalmente, personagem da própria mostra. Os visitantes poderão fotografar cenas de turismo, na “praia” da esplanada do CCF ou pela cidade, e publicar com a hashtag #parrmundopequeno. As imagens selecionadas pelo curador serão exibidas em um dia especial na TV da galeria, transformando o público em coautor do olhar que Parr passou décadas registrando.



