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01-2026

Exposição revela Nelson Kojranski, um modernista que ficou quase esquecido

Um acervo muito bem guardado pela família e o interesse a dedicação do pesquisador e curador Rubens Fernandes Junior revelaram mais um nome da fotografia modernista brasileira, até então praticamente desconhecido, forjado nas dependências do tradicional Foto Cine Clube Bandeirante, em São Paulo (SP). Essa descoberta pode ser vista na exposição “A Gênese Moderna na Fotografia de Nelson Kojranski”, que fica em cartaz até 30 de janeiro de 2026 na Kobbi Photo Gallery, localizada na Vila Madalena, zona oeste da capital paulista.

Kojranski foi membro do Foto Cine Clube Bandeirante e fez parte do grupo de fotógrafos modernistas

Como membro do Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), Nelson Kojranski (1927–2015) une-se a outros fotógrafos modernistas muito mais badalados que ele e que fazem parte da história do fotoclubismo brasileiro e da fotografia como um todo: Thomaz Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Marcel Giró, Eduardo Salvatore, Gertudes Altshcul, Chico Albuquerque, Gaspar Gasparian, Madalena Schwartz e José Yalenti. A mostra na Kobbi Photo Gallery reúne ampliações vintage, obras originais e documentos inéditos do arquivo preservado pela família de Kojranski.

Kojranski era criativo na forma como fazia a composição e enquadrava suas imagens

Além de reconstituir a trajetória de Kojranski no contexto do fotoclubismo paulista, a exposição também revisita o papel fundamental do FCCB na consolidação da fotografia moderna no Brasil, uma “escola” que colocou o Brasil em destaque em instituições internacionais, como prestigiadíssimo MoMA, de Nova York, EUA; o tradicional Festival de Fotografia de Arles, na França; além do MASP e do Centro Cultural São Paulo, dois marcos da arte na capital paulista.

A maioria das imagens que estão na exposição foi captada na cidade de São Paulo, entre 1946 e 1956

O curador Rubens Fernandes Junior conta que a experiência de modernista de Kojranski no Foto Cine Clube Bandeirante encerrou-se em 1956, há 50 anos, mas, segundo ele, é perceptível sua coerência estética intuitiva, seu conhecimento técnico, sua sensibilidade e sua disciplina, bem como a presença de um raciocínio lógico e de uma originalidade em sua produção fotográfica. Rubens conta o jovem judeu de origem polonesa, nascido em Vilna, associou-se ao FCCB com 19 anos e que, segundo as filhas dele, principal fonte de informação, Kojranski pode até ter sido funcionário do fotoclube e, aos poucos, foi se enturmando com os associados e aprendendo a fotografar.

Arquivo deNelson Kojranski, com fotos feitas nos anos de 1940 e 1950, foi preservado pela família

Ao pesquisar documentos da época, o curador descobriu que a aceitação de Kojranski como sócio se deu em novembro de 1946 e que ele recebeu o número 263. “É quase certo que a origem europeia e sua cultura geral lhe propiciaram essa oportunidade. As filhas contam que, na época, a família passava por certas dificuldades financeiras, pois ainda não estava totalmente estabelecida em São Paulo. Por isso, a hipótese dele ter sido, pelo menos inicialmente, um funcionário do clube, é bastante factível”, diz Rubens.

O curador Rubens Fernandes Junior elogia o domínio técnico, a sensibilidade e a criatividade de Kojranski 

De acordo com o curador, por meio de pesquisa em boletins publicados mensalmente pelo fotoclube, foi possível perceber a rápida evolução técnica e estética de Kojranski. Por uma década, entre 1946 e 1956, invariavelmente, há citações de seu nome nos boletins e nos catálogos dos salões nacionais e internacionais. Ele concluiu um bacharelado em Direito, em 1954, e casou-se em 1956. A partir daí, seu nome e a circulação de suas fotos desapareceram das publicações do FCBB.

O grafismo e a repetição foram algumas das vertentes exploradas pelo fotógrafo Nelson Kojranski

Não há dúvida, diz Rubens Fernandes Junior, que Kojranski praticou uma fotografia moderna, que por meio de formas distintas, ângulos inusitados, singularidades expressivas, rompeu com a fotografia acadêmica e pictorialista presente nas primeiras décadas do século 20. No trabalho de Nelson Kojranski, segundo o curador, é possível encontrar, quase sempre, uma síntese composicional criativa, que propõe, essencialmente, a dependência de um jogo de luz e sombra muito bem articulado – e com muitas fotos de corte vertical, o que pode ser visto como uma ousadia.

A mostra fica em cartaz até o dia 30 de janeiro de 2026 na Kobbi Photo Gallery  

Ao acessar arquivo de Kojranski, cuidadosamente mantido ao longo de décadas, o curador se deparou com dois momentos distintos: o primeiro, mais interessante, contém as matrizes mais conhecidas e muitas outras, que abrem um mundo de possibilidades visuais que não foram veiculadas nas exposições e nos salões da época, mas que hoje, com o distanciamento histórico, é possível vislumbrar seu potencial estético; o segundo momento, de produção de imagens da família, percebe-se que, mesmo longe das atividades fotoclubísticas, há um olhar afetivo e cuidadoso, que mantém as regras básicas da boa fotografia aprendidas no FCCB.

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