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09-2016

As faces da beleza negra

  • A fotógrafa explora bem expressões e gestos dos modelos
  • Marta Azevedo também usa elementos ligados à cultura afro nas produções, como cordas
  • O efeito esbranquiçado veio da argila que Marta Azevedo passou na pele da modelo
  • As primeiras fotos foram feitas em Dallas, Texas, onde a fotógrafa morou
  • Ela convidava modelos negros americanos e, em troca, oferecia os retratos feitos na sessão
  • As imagens acabaram virando um livro intitulado Black Faces
  • O charuto é uma referência à cultura negra de Cuba

Quem vê a fotógrafa carioca Marta Azevedo, 58 anos, não imagina seu grande interesse pela cultura afro. Loira de pele clara e olhos azuis, Marta passou a infância e a adolescência visitando familiares em Madureira, subúrbio da cidade do Rio de Janeiro, e participando de rodas de samba e terreiros de umbanda frequentados por negros na maioria. E logo se apaixonou por aquela cultura.

Quando teve de escolher um tema para o primeiro projeto envolvendo fotografia, não teve dúvida: “Queria retratar a beleza e as diferentes atitudes e estilos de vida dos negros, tão presente em minha vida”, conta. Foi assim que surgiu, em 2003, o ensaio Black Faces, retratos de modelos de beleza afro e produções ligadas à cultura africana.

Formada em Letras, Marta trabalhava dando aulas de Inglês e Português. A fotografia era apenas um hobby. Até que começou a se interessar e fazer cursos e workshops na área. Assim que dominou a técnica, decidiu fazer um ensaio sobre a cultura africana. As primeiras imagens feitas por Marta eram coloridas e registradas sob a luz natural. Mas o resultado não lhe agradou. “Não gostei muito do projeto. Achei muito comum”, conta.

A descoberta do preto e branco

No ano seguinte, casou-se com um americano e foi morar em Dallas,Texas, nos Estados Unidos. Lá, montou um estúdio e recomeçou o projeto. Dessa vez, com uma nova estética. Inspirada no trabalho do fotógrafo baiano Mario Cravo Neto, ela passou a fotografar modelos negros com elementos da cultura africana, iluminados com dois flashes com sombrinhas acopladas, que mudava de posição conforme a necessidade de luz no retrato, em um fundo escuro.

Como não tinha muitos contatos nos Estados Unidos, Marta se cadastrou em um site de busca de modelos em início de carreira. Ela dizia as características que a pessoa tinha de ter e os interessados a procuravam. Em troca, oferecia as fotos feitas na sessão, que durava entre duas a três horas. Para compor os retratos, Marta Azevedo usava elementos como argilas, penas, cordas, lenços e turbantes. Ela mesmo cuidava da produção dos modelos. Marta caprichava em todos os detalhes para evitar ter muito trabalho de tratamento no Photoshop – em que fazia a conversão da imagem colorida para preto e branco e ajustes.

Milhares de imagens

Um dos pormenores a que dedicava bastante atenção era a cor de cada elemento, pois cada cor reproduz um tom de cinza. “Na pele negra, não podia usar tons escuros, como verde musgo, pois não criaria contraste. O branco também não era o ideal porque chamava muita a atenção. Tentava trabalhar com tons pastéis ou cores claras”, diz.

Os dez anos dedicados a esse trabalho resultaram em 40 mil imagens, das quais selecionou 108 para o livro Black Faces, lançado no fim de 2012, que fez em parceria com a produtora KBMK – Empreendimentos Culturais, e patrocínio da Secretária de Estado de Cultura do Rio de Janeiro e a Companhia Estadual de Gás (CEG). A proposta para o livro veio depois de uma exposição que Marta fez em uma festa na casa de uma amiga. “Meu interesse sempre foi de expor o trabalho. Nunca tinha pensado em um livro até receber o convite”, diz. Para editar todo o material, a fotógrafa demorou quatro meses e contou com a ajuda do editor Henrique Pontual.

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